Anatomia do voto por seção eleitoral, as duas campanhas de 16/08 a 25/10/2026, teste dos fatores e confronto com o que se projetava antes da urna.
Vicentinho não virou só por herdar a terceira via: ele tirou eleitores de Dorinha. Pelo menos 77 mil eleitores dela no 1º turno (20%) não votaram nela no 2º, conta que dispensa modelo. Em algumas seções o ganho dele só fecha com voto que era dela, e os dois modelos estimam que de 63 mil a 93 mil foram para ele.
De cada 100 eleitores de Dorinha no 1º turno, entre 16 e 24 votaram em Vicentinho no 2º, segundo dois métodos de estimativa. São de 63 mil a 93 mil votos. Laurez transferiu cerca de três quartos a quatro quintos dos seus votos (76% pelo Goodman, com intervalo de 63% a 96%; 80% pela inferência ecológica, sem convergência). Quem votou em branco ou nulo no 1º turno parece ter ido mais para Vicentinho que para Dorinha, mas esse número vem de um só modelo, sem convergência. Quase toda a abstenção do 1º turno continuou em casa.
A virada variou sobretudo entre municípios: 61% da variação entre seções está na diferença de um município para outro, e o perfil do eleitor explica 5%. O que torna um município diferente do outro não foi medido: o termo de município inclui força prévia, teto, geografia e alianças locais. Nos sete municípios cujo prefeito trocou de lado a virada foi maior, mas são poucos casos, e a liderança pode ter seguido a onda em vez de causá-la. Os prefeitos que ela reuniu não produziram vantagem detectável; o teste, com grupos de 5 a 11 municípios, só excluiria um efeito grande.
Com o apoio de Flávio Bolsonaro, anunciado em 07/10, Dorinha fez 158 mil votos a menos que ele no estado, e Vicentinho já era eleitor declarado de Flávio. A virada foi quase igual em seções lulistas e bolsonaristas; o desenho não mede se o apoio rendeu ou custou voto. A aprovação do governo Wanderlei (58% numa única pesquisa, de 10 a 13/10) e a vantagem financeira de Dorinha (ela contratou o dobro no 2º turno) não impediram a virada, e nenhum dos dois aparece como explicação nos dados disponíveis.
Nada disso estava nas projeções. Pesquisas e projeção subestimaram Vicentinho nos dois turnos, quase sempre. No 1º turno, seis das sete últimas pesquisas ficaram de 1 a 8 p.p. abaixo dele; a exceção, Correio do Povo, errou 5,9 p.p. para cima. A projeção ficou 5 p.p. abaixo. No 2º, as três pesquisas da véspera com número conferido (23 e 24/10) ficaram de 5,0 a 5,5 p.p. abaixo; a quarta, Directa, com número só em reprodução secundária, errou 16,3. As anteriores erraram de 8 a 19 p.p., erro que mistura movimento depois do campo e viés de instituto, sem como separar os dois. O resultado de 64,52% ficou acima do teto da faixa projetada em 11/10.
| Candidato | 1º turno (04/10) | 2º turno (25/10) | Variação |
|---|---|---|---|
| Vicentinho Júnior (PSDB, 45) | 372.848 (43,94%) | 562.083 (64,52%) | +189.235 |
| Professora Dorinha (União, 44) | 386.260 (45,52%) | 309.076 (35,48%) | −77.184 |
| Laurez Moreira (PSD) | 69.967 (8,24%) | não concorreu | |
| Demais candidatos | 19.554 | não concorreram | |
| Brancos e nulos (com nulo técnico) | 115.181 | 82.226 | −32.955 |
| Abstenção | 216.623 | 227.081 | +10.458 |
No 1º turno Dorinha venceu em 82 municípios, Vicentinho em 56 e Laurez em 1. No 2º, Vicentinho venceu em 113 e Dorinha em 26: 57 municípios que eram dela passaram a ele, o de Laurez também, e só 1 fez o caminho inverso. Dorinha perdeu voto em número absoluto em 129 dos 139. Para presidente, no mesmo dia e no mesmo eleitorado, Flávio Bolsonaro fez 467.916 votos (51,37%) e Lula 442.962 (48,63%).
| Base | Nível | Fonte | Conferência |
|---|---|---|---|
| Votação do 1º turno, governador e presidente | 4.384 seções | Arquivo de boletim de urna do TSE, com integridade conferida | Soma igual ao total oficial por candidato e município, mais brancos, nulos e nulos técnicos |
| Votação do 2º turno, governador e presidente | 4.384 seções | Boletins de urna do arquivo de divulgação do TSE, lidos um a um | Soma igual ao total oficial por candidato e município, mais brancos e nulos; mesmas seções do 1º turno |
| Perfil do eleitorado | seção | TSE, perfil do eleitor por seção 2026 | 4.374 de 4.384 seções casadas |
| Contas de campanha | candidato | TSE, quatro retratos (24/08, 10/09, 06/10 e 26/10) | Só agregados; nada nominal |
| Pesquisas | onda | 1º turno: 24 ondas estimuladas com os dois nomes desde 16/08, registradas no TSE; 2º turno pelo registro do TSE, pelas fichas do PesqEle e pela imprensa | 15 de 15 fichas lidas; 10 de 15 com número publicado |
| Contencioso eleitoral | processo | Índice público DataJud do TRE-TO, de 01/08 a 26/10 | Frescor do índice conferido (documento mais novo de 26/10) |
| Projeção e classificação dos municípios | estado e município | Registros de 03/10, 05/10 e 11/10, anteriores ao resultado | Pontuados contra a urna |
| Apoio de prefeitos | município | Imprensa | 60 de 139 municípios mapeados |
| Noticiário | matéria | 6.465 matérias de 16/08 a 26/10, de jornais e portais do Tocantins | Data de publicação lida na própria página; matérias repetidas eliminadas |
O TSE ainda não tinha publicado o CSV por seção do 2º turno em 26/10. Por isso o 2º turno foi lido direto dos boletins de urna; a soma por município, igual ao total oficial, prova que nada se perdeu nem se duplicou.
Desde 16/08, Dorinha liderou 18 das 24 ondas de pesquisa estimulada que traziam os dois nomes. Vicentinho só apareceu à frente em 6, três delas do Correio do Povo. A cobertura da corrida tratava de saúde, gestão e prefeitos: Flávio, Bolsonaro e PL apareciam em 3% das matérias da corrida, e Lula e PT em menos de 1%. A eleição estadual era local. Na urna, Dorinha ficou à frente por 1,6 p.p., margem bem menor que a das pesquisas, e perdeu fôlego nas cidades grandes: a imprensa de 05/10 registrou o resultado “pífio” dela em Palmas e Araguaína.
Em 05/10 Vicentinho reafirma voto em Flávio Bolsonaro (“não vou me reinventar”) e recebe adesões de vereadores de Gurupi, entre eles aliados de Laurez. Em 07/10 Flávio grava vídeo de apoio a Dorinha, com mediação do senador Eduardo Gomes, presidente do PL no estado; a imprensa registra que ele preteriu o bolsonarista declarado por uma senadora que tinha sido vice-líder do governo Lula e tem indicações em Correios, Caixa e Codevasf no estado. No mesmo dia o PT estadual decide não apoiar nenhum dos dois e concentrar-se em Lula.
Laurez declara voto em Vicentinho em 08/10, e 124 vereadores aderem a ele no mesmo dia. Eli Borges, com 271 mil votos para o Senado, troca Dorinha por Vicentinho em 09/10. Dorinha reúne “mais de 80 prefeitos” em dois dias (09/10), mas a coluna TO em Pauta já descreve Vicentinho chegando “como avalanche”. Em 10/10 Kátia Abreu escolhe Vicentinho, elogiando a coerência dele ao declarar voto em Flávio, e o governador Wanderlei chama as saídas de “depuração”. Entre 08 e 11/10, os prefeitos de Darcinópolis, Nazaré, São Salvador e Itaguatins passam a Vicentinho, e o de Dueré, do grupo de Laurez, segue o líder. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis declaram apoio a Dorinha (11/10). A Directa (06 a 10/10) ainda dá Dorinha à frente com 52,8% dos válidos.
Ronaldo e Tiago Dimas, que estavam com Dorinha no 1º turno, vão para Vicentinho (13/10). Vinícius Pires e vereadores de Palmas fazem o mesmo (14/10), assim como um grupo de agentes de segurança; Witer Naves e lideranças do PT seguem entre 15 e 17/10. Alfredo Júnior, com 48 mil votos, adere em 18/10. Dorinha recebe Silas Malafaia (12 e 13/10), falta ao primeiro debate (15/10) e declara-se de centro-direita e apoiadora de Flávio (16/10). A coligação dela consegue suspender a pesquisa Stylo (15/10). Os riscos de Vicentinho aparecem: a Operação Overclean da PF chega a ele e a uma empresa ligada à família (Jornal Opção, 18/10), e há atritos com jornalistas numa sabatina de TV (16/10).
Paraná Pesquisas dá Vicentinho com 56,5% dos válidos (19/10). A Justiça Eleitoral nega o pedido da coligação de Dorinha para barrar a divulgação de outra pesquisa (19/10). Prefeito, vice e 8 dos 9 vereadores de Santa Rita do Tocantins aderem a Vicentinho (19/10). Há dois debates em 19/10 (SBT e RedeTV) e o da TV Anhanguera em 22/10. Dorinha faz o ato “Todas por Ela” com Michelle, Damares e Bia Kicis (21/10), e Flávio volta a pedir voto em vídeo (20/10). Em 23/10 vem a público um documento de 2009 que registra denúncia de agressão contra Vicentinho. Ele e familiares negam a agressão em vídeo; segundo a imprensa, a Secretaria da Segurança Pública confirma a autenticidade do documento, sem conclusão sobre autoria nem desfecho. O último debate, na TV Anhanguera, é tenso: Vicentinho pede desculpas por ter ironizado uma jornalista, e Dorinha diz ter se sentido intimidada. Em 24/10 o TRE-TO derruba uma multa de R$ 106 mil contra o Jornal Opção, aplicada em ação da coligação de Vicentinho, e Eduardo Gomes promete apoio e recursos do PL nacional a um governo Dorinha. As últimas pesquisas (Paraná, AtlasIntel, Quaest) dão Vicentinho com 59% a 59,5% dos válidos.
| Tema | 1º turno | 05 a 12/10 | 13 a 22/10 | 23 a 26/10 |
|---|---|---|---|---|
| Flávio, Bolsonaro e PL | 3% | 52% | 46% | 44% |
| Lula e PT | menos de 1% | 47% | 42% | 43% |
| Adesões, apoios e prefeitos | 16% | 51% | 45% | 22% |
| Gestão Wanderlei | 14% | 20% | 22% | 11% |
| Saúde | 15% | 10% | 21% | 11% |
| Justiça Eleitoral | 6% | 15% | 18% | 27% |
| Debate | 9% | 8% | 14% | 12% |
| Denúncia de agressão | menos de 1% | 1% | 4% | 8% |
A inferência ecológica estima, a partir dos totais de cada local de votação, quanto de cada grupo do 1º turno foi para cada lado no 2º. Foi rodada nos 927 locais de votação do estado, com o método de Rosen, Jiang, King e Tanner e três simulações independentes, cada uma com 100 mil passos de aquecimento e 100 mil de amostra. Não mede o voto de ninguém: descreve lugares.
| Origem no 1º turno | Dorinha | Vicentinho | Branco/nulo | Abstenção |
|---|---|---|---|---|
| Dorinha (386.291) | 72,8 [71,2–74,1] | 24,1 [22,8–25,6] | 1,2 | 1,9 |
| Vicentinho (372.860) | 3,1 [2,2–4,3] | 94,2 [92,7–95,2] | 1,0 | 1,7 |
| Laurez (69.965) | 8,4 [5,3–11,8] | 80,1 [74,9–85,4] | 9,1 | 2,3 |
| Outros candidatos (20.580) | não identif. | não identif. | não identif. | 2,8 |
| Branco/nulo (114.153) | 4,3 [1,7–7,9] | 44,3 [40,4–48,4] | 48,5 | 2,9 |
| Abstenção (216.617) | 1,3 | 1,6 | 1,2 | 95,9 |
O critério usual de convergência (R-hat de Gelman-Rubin abaixo de 1,1) não é atingido em 17 dos 24 parâmetros, inclusive na célula Dorinha → Vicentinho (1,13); o máximo é 3,96, na linha “outros”. Entre as simulações, as médias diferem até 0,6 p.p. nas linhas de Dorinha e Vicentinho, 1,9 p.p. em branco e nulo e 5,5 p.p. em Laurez. Por isso Laurez é dado como faixa confirmada pelo Goodman, branco e nulo como estimativa sem confirmação, e a linha “outros candidatos”, que varia de 5% a 18%, não é interpretada: entra só para fechar as contas da Tabela 5 e do fluxo de votos. A direção da defecção de Dorinha não depende do modelo: ela se prova seção a seção (§7).
| Origem | Votos | % do total |
|---|---|---|
| Eleitores dele no 1º turno | ~351 mil | 62% |
| Eleitores de Dorinha no 1º turno | ~93 mil | 17% |
| Eleitores de Laurez | ~56 mil | 10% |
| Branco/nulo no 1º turno | ~51 mil | 9% |
| Outros candidatos e abstenção | ~11 mil | 2% |
| Origem no 1º turno | Dorinha | Vicentinho | Branco/nulo | Abstenção |
|---|---|---|---|---|
| Dorinha | 74,5 | 16,4 (IC 11,7–21,1) | 1,9 | 4,3 |
| Vicentinho | 2,0 | 91,6 | 2,3 | 1,0 |
| Laurez | 8,6 | 75,9 (IC 63–96) | 16,3 | 0,0 |
| Abstenção | 1,0 | 0,0 | 0,3 | 95,5 |
Os dois métodos concordam na direção e na ordem de grandeza: retenção de Vicentinho de 92% a 94%, transferência de Laurez de 76% a 80%. Divergem no tamanho da defecção de Dorinha: 16% no Goodman e 24% na inferência ecológica, com intervalos que não se sobrepõem (de 12% a 21% e de 23% a 26%). O relatório usa os dois como balizas: de cada 100 eleitores de Dorinha no 1º turno, entre 16 e 24 votaram em Vicentinho, de 63 mil a 93 mil votos, que contam duas vezes no saldo porque saem de um lado e entram no outro. Como os intervalos não se sobrepõem, pelo menos um dos métodos está enviesado, e a forte variação entre municípios contraria uma premissa do Goodman. A faixa é uma baliza entre dois modelos, não um intervalo de confiança; o valor real pode ficar fora dela.
As maiores perdas absolutas de Dorinha foram nas cidades grandes, onde ela tinha o apoio declarado dos prefeitos: Palmas (−13.931), Araguaína (−9.867), Porto Nacional (−2.691). Nos 12 maiores municípios o saldo de Vicentinho passou de +2,2 mil para +152 mil; nos 127 menores, de −15,6 mil para +100,7 mil. A virada ocorreu em quase todo o estado: a fatia dele subiu em 135 dos 139 municípios; em votos, metade do ganho veio de 6 municípios.
Cada fator com o que o sustenta, o que o contraria e o que não se separa.
Seção a seção, 61% da variação da virada no confronto direto está na diferença entre municípios. O perfil do eleitor (escolaridade, idade, gênero, raça, quilombola) explica 5%. A política do 1º turno (força prévia, voto em Laurez, brancos e nulos) somada ao voto presidencial explica 32%, boa parte pelo efeito de teto do fator 9. Tudo junto, 80%.
A virada variou de município para município muito mais que conforme o perfil do eleitor. Isso é compatível com alianças e lideranças locais, mas o termo de município também absorve geografia, mídia regional e composição média do eleitorado; o que torna um município diferente não foi medido por inteiro. Dentro do mesmo município, seções com mais eleitores de nível superior e mais idosos viraram menos (t de −8,1 e −3,1; em valor absoluto, t acima de 2 indica efeito pouco provável de ser acaso). Foi onde Dorinha resistiu melhor.
Entre 05 e 19/10 o noticiário registra a migração em série de lideranças do campo de Dorinha e do de Laurez para Vicentinho: Eli Borges, os Dimas, Vinícius Pires, deputados eleitos do Podemos, vereadores de Palmas e Gurupi, Kátia Abreu, Alfredo Júnior, Witer Naves. Nos sete municípios cujo prefeito trocou de lado no 2º turno, a virada foi de +28 p.p., de 14 a 20 p.p. acima do esperado pela força prévia e pelo porte (t = +2,4 ponderado; +5,3 por município).
Ressalva: são só 7 municípios, e a causalidade pode ser inversa. Liderança local pula para o lado que vê crescer, e a avalanche já era descrita assim em 09/10. A migração é ao mesmo tempo causa e sintoma.
| Prefeito no 2º turno | Municípios | Aptos | Virada |
|---|---|---|---|
| Vicentinho desde o 1º turno | 26 | 140.634 | +11,8 p.p. |
| Aderiu a Vicentinho no 2º turno | 7 | 36.226 | +28,0 p.p. |
| Dorinha, declaração individual | 11 | 86.178 | +16,0 p.p. |
| Dorinha, só presença em reunião | 11 | 49.881 | +12,2 p.p. |
| Dorinha, as 5 maiores cidades | 5 | 486.783 | +16,5 p.p. |
| Sem informação | 79 | 380.764 | +14,4 p.p. |
Controlando a força no 1º turno e o porte, os municípios com prefeito declarado de Dorinha não viraram menos que os sem informação (t entre −1,5 e +0,1). Com grupos de 5 a 11 municípios e uma referência que provavelmente também é majoritariamente dela, o teste só exclui um efeito grande. Os cinco maiores prefeitos do estado estavam com ela; ela já perdia em três dessas cidades no 1º turno e perdeu nas cinco no 2º. Os “mais de 80” prefeitos anunciados em 09/10 nunca foram nomeados em matéria encontrada, e a lista de 26 prefeitos de Vicentinho foi publicada depois da eleição (risco de alinhamento retrospectivo). Cobertura: 60 de 139 municípios.
O partido dos prefeitos mostra o tamanho da base municipal dela. Pelo partido em que foram eleitos em 2024, 114 dos 139 prefeitos são de partidos da coligação de Dorinha no 1º turno (União, PP, Republicanos, PL, Podemos, Avante, PRD e Solidariedade), contra 6 da de Vicentinho (MDB, PSDB e Cidadania), 18 da de Laurez e 1 de partido fora das três. Com essa base, ela já tinha vencido em só 82 municípios no 1º turno; no 2º, Vicentinho venceu em 113. Onde há declaração na imprensa, o partido do prefeito coincide com o lado que ele apoiou em só 25 de 51 casos: a filiação não prendeu o prefeito.
Laurez transferiu entre três quartos e quatro quintos dos seus votos. A proporção de voto em Laurez no 1º turno aumenta a virada mesmo comparando seções do mesmo município (t = +3,2). O PSD de Laurez não levou todos: candidatos da base dele migraram para Dorinha (14/10), e o prefeito do PSD de São Bento do Tocantins ficou com ela.
Flávio fez 467.916 votos no Tocantins; Dorinha, candidata dele, fez 309.076. Na mediana das seções, Flávio ficou 18,4 p.p. acima de Dorinha.
O fio que explica isso está na semana de 05/10. Vicentinho era eleitor declarado de Flávio desde antes do 1º turno e reafirmou o voto em 05/10. Flávio escolheu Dorinha em 07/10, por articulação do PL estadual, apesar de ela ter sido vice-líder do governo Lula no Senado e de ter indicações em órgãos federais no estado. O eleitor bolsonarista tinha, portanto, um candidato que já votava em Flávio. E o lulista também tinha para onde ir: o PT ficou neutro, e Kátia Abreu foi para Vicentinho. O resultado é o que os dados mostram: a virada foi de +16,2 p.p. onde Lula venceu e de +14,9 p.p. onde Flávio venceu, e o voto em Lula não prevê a virada dentro do município (t = −0,5).
A nacionalização foi escolha do 2º turno: no 1º, Flávio, Bolsonaro e PL apareciam em 3% da cobertura da corrida; no 2º, em cerca de metade. Não há sinal de que ela tenha custado voto lulista a Dorinha de forma diferenciada, e ela não trouxe o voto bolsonarista, que já tinha alternativa. Um efeito igual em todas as seções, a favor ou contra, não seria visível neste desenho.
A Quaest de 10 a 13/10 media o governo Wanderlei aprovado por 58% e desaprovado por 26% (avaliação positiva 45%, negativa 12%). A candidata do governo perdeu por 29 p.p. com o governo aprovado: a aprovação não se transferiu a ela. A própria Dorinha passou a se diferenciar de Wanderlei a partir de 08/10, e o governador tratou as saídas do grupo como “depuração”. Só uma pesquisa mediu avaliação no período, e por isso a hipótese fica enfraquecida, não refutada.
No 2º turno Dorinha contratou R$ 3,25 mi e Vicentinho R$ 1,45 mi. No 1º turno ela também gastou mais, e Laurez contratou mais que Vicentinho. O detalhe está no §9.
Ausência de Dorinha no primeiro debate (15/10), Operação Overclean (18/10), documento de 2009 com denúncia de agressão, confirmado pela Segurança Pública segundo a imprensa e negado pelo candidato e por familiares (23/10), atritos com a imprensa, suspensões e pedidos de suspensão de pesquisa. Com pesquisas de institutos diferentes e sem painel, o efeito de cada episódio não se separa. O que se pode dizer: os episódios negativos para Vicentinho não interromperam o crescimento dele nas pesquisas de 19 a 24/10, e, das quatro pesquisas com campo encerrado em 23 e 24/10, colhidas em parte durante o caso da denúncia, as três com número conferido deram a ele a maior vantagem da série; a quarta (Directa, número só em reprodução secundária) dava Dorinha à frente.
Onde Vicentinho já era forte no 1º turno, ele cresceu menos (coeficiente de −0,33 a −0,48 sobre a força prévia, t entre −11 e −20). Os redutos de Dorinha caíram mais. É em parte efeito de teto, e explica por que a virada se espalhou pelo mapa.
Três registros feitos antes do resultado permitem comparar o método com o resultado: a projeção estadual de 03/10 para o 1º turno, a de 11/10 para o 2º e a classificação dos municípios feita em 05/10, depois do 1º turno. Eles foram congelados na data e não foram ajustados depois.
| Registro | Projetado | Urna | Erro em Vicentinho |
|---|---|---|---|
| 1º turno, 03/10, mediana dos válidos | Dorinha 44,1 · Vicentinho 38,9 · Laurez 9,4 | 45,52 · 43,94 · 8,24 | −5,0 p.p. |
| 2º turno, 11/10, fatia de Vicentinho no confronto direto | 51,1 (faixa de 80%: 43,8 a 58,4) | 64,52 | −13,4 p.p. |
O erro tem a mesma direção nos dois turnos. Parte dele vem de o modelo agregar pesquisas até 10/10, antes da migração de lideranças; mas o 1º turno, anterior a ela, já subestimou Vicentinho em 5 p.p., e as pesquisas da véspera do 2º ainda ficaram 5 p.p. abaixo. Há, portanto, um componente sistemático que a migração não explica. A correção pelo erro dos institutos de pesquisa no 1º turno ia na direção certa, mas era pequena demais. O resultado ficou acima do teto da faixa de 80%, o que indica que a incerteza estava subestimada para uma eleição em que o eleitorado de uma candidata se desfaz. A calibração histórica não tinha esse caso: em 2014, 2018 e 2022, o candidato do governo superou as pesquisas. Em 2026 o padrão se inverteu.
| Tipo (±5 p.p. no 1º turno) | Municípios | Aptos | Virada | Saldo de Vicentinho, 1º → 2º |
|---|---|---|---|---|
| Vantagem dele no 1º turno | 44 | 285.744 | +10,5 p.p. | +45.891 → +95.635 |
| Disputa equilibrada | 19 | 447.934 | +16,5 p.p. | −3.334 → +106.501 |
| Vantagem dela no 1º turno | 76 | 446.788 | +17,4 p.p. | −55.969 → +50.871 |
| Registro | Instituto | Fim do campo | Contratante (valor) | Vicentinho (%) | Erro (p.p.) |
|---|---|---|---|---|---|
| TO-03128/2026 | Directa | 10/10/2026 | Trilhas do Cerrado (R$ 20 mil) | 47,2 | −17,3 |
| TO-00439/2026 | Seta | 10/10/2026 | o próprio instituto (R$ 15 declarados) | 54,6 | −9,9 |
| TO-03829/2026 | Quaest | 13/10/2026 | TV Anhanguera (R$ 160 mil) | 53,8* | −10,7 |
| TO-09294/2026 | Data Pop | 14/10/2026 | P&P Publicidade / GT Multimídia (R$ 15 mil) | 45,9 | −18,6 |
| TO-09349/2026 | Paraná Pesquisas | 17/10/2026 | Fieto (R$ 175 mil) | 56,5 | −8,0 |
| TO-09320/2026 | Real Time Big Data | 19/10/2026 | 3 Poderes Mídia (R$ 20 mil) | 52,0 | −12,5 |
| TO-05504/2026 | Directa | 23/10/2026 | o próprio instituto (R$ 20 mil) | 48,2** | −16,3 |
| TO-02968/2026 | Paraná Pesquisas | 23/10/2026 | Fieto (R$ 175 mil) | 59,0 | −5,5 |
| TO-01088/2026 | AtlasIntel | 23/10/2026 | o próprio instituto (R$ 75 mil) | 59,5 | −5,0 |
| TO-03069/2026 | Quaest | 24/10/2026 | TV Anhanguera (R$ 303 mil) | 59,0 | −5,5 |
| Instituto | Última onda do 1º turno | Última onda do 2º turno |
|---|---|---|
| Quaest | −2,3 | −5,5 |
| Paraná Pesquisas | −3,2 | −5,5 |
| IPEX | −3,0 | sem onda |
| Verita | −2,2 | sem número |
| Stylo | −1,0 | suspensa |
| O Coletivo | −7,8 | sem onda |
| Correio do Povo | +5,9 | sem número |
Na véspera do 1º turno, seis dos sete institutos de pesquisa subestimaram Vicentinho; a exceção foi o Correio do Povo, que errou para o lado dele. Os dois institutos de pesquisa medidos nos dois turnos, Quaest e Paraná, subestimaram Vicentinho de novo no 2º, por margem maior. O erro de cada instituto de pesquisa cai com a proximidade da eleição, o que é compatível com movimento tardio, mas sem painel não se separa de viés de instituto.
As fichas do PesqEle acrescentam duas leituras. Quem pagou: as três pesquisas que menos erraram na véspera (Paraná, AtlasIntel e Quaest, erro de 5,0 a 5,5 p.p.) custaram de R$ 75 mil a R$ 303 mil; as que mais erraram no 2º turno (Data Pop, Directa e Real Time, de 12,5 a 18,6 p.p.) custaram de R$ 15 mil a R$ 20 mil, e a Directa errou 16,3 p.p. na mesma data em que as mais caras erravam 5. Com dez pesquisas, é observação, não lei. O preço também acompanha a data: as caras de 13 e 17/10 erraram de 8 a 11 p.p., e a comparação na mesma data depende de um número da Directa que só apareceu em reprodução secundária.
Quem assinou: quatro dos quinze registros do 2º turno (as duas Correio do Povo, contratadas por um posto de combustível, e as duas Stylo, pagas pelo próprio portal) têm o mesmo estatístico responsável, que no 1º turno também assinava O Coletivo. Contam como uma leitura, não quatro, e nenhuma delas teve número completo encontrado.
As duas campanhas tentaram tirar pesquisas do ar. No 1º turno, até 28/09, 13 pesquisas tinham sido suspensas no estado; entre elas uma Quaest, a pedido da coligação de Vicentinho (a campanha de Alexandre Guimarães, da chapa dele, obteve ainda auditoria dos dados), e uma Real Time, ambas por falhas de documentação. No 2º turno os dois lados foram ao tribunal. A coligação de Vicentinho pediu a suspensão da Data Pop, que dava Dorinha à frente, e perdeu, embora o TRE-TO tenha mandado informar que todas as perguntas eram estimuladas. A coligação de Dorinha obteve em 11/10 a suspensão da Correio do Povo TO-08943, sob multa diária de R$ 50 mil, e em 15/10 a da Stylo TO-09592, por falta do plano de entrevistas por escolaridade; segundo essa coligação, a Stylo foi publicada mesmo assim, o que motivou novo pedido de multa. Teve negados os pedidos contra a Paraná Pesquisas (19/10) e contra a Correio do Povo TO-04342 (cerca de 22/10). Em 11/10, uma liminar a pedido da campanha de Dorinha também derrubou uma pesquisa falsa, sem registro, que circulava com vantagem para Vicentinho.
No índice público do DataJud, o TRE-TO recebeu 166 processos de contencioso entre 01/08 e 26/10, quase todos representações: 123 no 1º turno e 43 nas três semanas do 2º. O registro de pesquisa concentra a mudança: 13 processos em todo o 1º turno e 14 só no 2º. No 1º turno predominavam propaganda em redes (38) e notícia sabidamente falsa (23). O índice não identifica as partes e tem atraso de cerca de dois dias; o número mede a temperatura da eleição, não quem acionou quem.
| Retrato do TSE | Candidato | Receita | Contratado | Pago | Liquidação |
|---|---|---|---|---|---|
| 10/09/2026 | Dorinha | R$ 6,08 mi | R$ 3,39 mi | R$ 0 | 0% |
| 10/09/2026 | Vicentinho | R$ 4,91 mi | R$ 0,49 mi | R$ 0,49 mi | 100% |
| 10/09/2026 | Laurez | R$ 4,55 mi | R$ 0,05 mi | R$ 0,05 mi | 100% |
| 06/10/2026 | Dorinha | R$ 6,84 mi | R$ 5,89 mi | R$ 5,48 mi | 93% |
| 06/10/2026 | Vicentinho | R$ 5,39 mi | R$ 4,08 mi | R$ 3,87 mi | 95% |
| 06/10/2026 | Laurez | R$ 4,71 mi | R$ 4,86 mi | R$ 3,01 mi | 62% |
| 26/10/2026 | Dorinha | R$ 10,62 mi | R$ 9,67 mi | R$ 9,19 mi | 95% |
| 26/10/2026 | Vicentinho | R$ 8,13 mi | R$ 6,22 mi | R$ 6,17 mi | 99% |
| 26/10/2026 | Laurez | R$ 5,62 mi | R$ 5,70 mi | R$ 5,07 mi | 89% |
| Semana (segunda) | Dorinha | Vicentinho |
|---|---|---|
| 10/08 | 2.464 | 1.540 |
| 17/08 | 523 | 162 |
| 24/08 | 1.097 | 380 |
| 31/08 | 657 | 1.023 |
| 07/09 | 368 | 491 |
| 14/09 | 732 | 185 |
| 21/09 | 35 | 444 |
| 28/09 | 541 | 549 |
| 05/10 | 1.918 | 609 |
| 12/10 | 698 | 232 |
| 19/10 | 631 | 609 |
| 1º turno (até 04/10) | 6.418 | 4.774 |
| 2º turno (a partir de 05/10) | 3.247 | 1.449 |
Os retratos mostram o atraso de declaração: em 10/09 Vicentinho declarava R$ 0,49 mi contratados, quando pela data das transações já somava mais de R$ 3 mi contratados. Quem acompanhava a declaração do dia via um quadro bem diferente do real. Somados os dois turnos, Dorinha contratou R$ 9,67 mi contra R$ 6,22 mi de Vicentinho, e concentrou R$ 1,9 mi só na primeira semana do 2º turno. Nas receitas declaradas por ela até 26/10, o PL aparece com cerca de R$ 10 mil. Vicentinho gastou relativamente mais em militância de rua (R$ 0,64 mi contra R$ 0,16 mi) e impulsionamento; Dorinha, em serviços de terceiros, impressos e pessoal. Gastar mais não bastou: a candidata que mais contratou nos dois turnos perdeu.